Emissoras públicas buscam novos formatos e parcerias para expandir alcance e diversificar programação
A busca por vozes inéditas e a necessidade de um espaço maior para produções regionais estão no centro das discussões da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP). O reality show “A Voz Dela”, que elegeu a locutora do São João de Caruaru, em Pernambuco, é um exemplo inspirador de como emissoras públicas podem inovar e engajar suas comunidades.
O programa, exibido pela PrefTV de Caruaru, deu visibilidade a mulheres comuns com o sonho de atuar em grandes eventos, promovendo a inclusão feminina em um palco tradicionalmente masculino. Essa iniciativa foi apresentada em um encontro da RNCP, que reúne emissoras de rádio e TV de todo o país, com o objetivo de fortalecer parcerias e explorar novos formatos.
A necessidade de mais espaço para conteúdo regional na TV Brasil e a adaptação às novas tecnologias, como a TV 3.0, foram temas centrais. A RNCP, coordenada pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), busca consolidar um modelo de rede que valorize a diversidade e a horizontalidade entre suas afiliadas, conforme informações divulgadas durante o encontro.
Inovação e Inclusão: O Sucesso de “A Voz Dela”
A jornalista Rebeca Nunes, apresentadora do “A Voz Dela”, explicou que o programa surgiu da necessidade de ter uma voz feminina na locução do São João de Caruaru. “Em um dos palcos principais do São João de Caruaru, a gente não tinha presença feminina, como locutora, anunciando atrações, dando avisos e fazendo as promoções”, declarou Nunes.
A ideia foi envolver mulheres da comunidade, mesmo que não fossem da área de comunicação, mas que tivessem desenvoltura e o desejo de estar naquele palco. O programa teve sua segunda edição ao vivo em 2026, transmitida pela TV e internet, conquistando grande audiência e mobilizando a cidade de Caruaru. A iniciativa demonstra o potencial de formatos criativos para engajar o público e dar visibilidade a talentos locais.
Expansão de Conteúdo Regional e Parcerias Estratégicas
Welder Alves, Gerente de Rádio, Projetos Especiais e Mídia Digitais do Sistema Encontro das Águas, destacou a importância da RNCP para a veiculação de conteúdo regional. “A rede tem, entre suas várias demandas, uma que se sobressai, que é a ampliação da presença de produções regionais na programação”, afirmou Alves.
Ele mencionou que programas e reportagens de afiliadas já são exibidos pela TV Brasil e Rádio MEC, como a cobertura da COP-30 e o Festival de Óperas. No entanto, Alves ressaltou que as afiliadas veem espaço para expandir ainda mais essa presença, com programas das parceiras ocupando cerca de 11,3% da grade da TV Brasil, entre 6h e meia-noite.
TV 3.0 e o Futuro da Comunicação Pública
A presidenta da EBC, Antonia Pellegrino, enfatizou que a empresa está em um novo momento, impulsionado pelas transformações tecnológicas. A chegada da TV 3.0, que integrará televisão e internet, exigirá que todas as emissoras estejam preparadas para operar em um mesmo patamar.
“Nós somos um campo [o campo público]”, disse Pellegrino. “Cabe a cada emissora fazer a sua programação, criar o seu conteúdo, trazer a sua linguagem e se colocar na mesma prateleira, juntos, subvertendo hierarquias.” O diretor-geral da EBC, David Butter, complementou que a rede não deve se prender a modelos existentes, mas sim buscar “soluções próprias” e que a EBC atue como facilitadora, “mais do que uma cabeça de rede alimentada por afiliadas”.
Sustentabilidade Financeira e a Carta do Rio
Ao final do encontro, foi apresentada uma minuta da Carta do Rio, um documento que resume as demandas e análises das afiliadas sobre o cenário da comunicação pública no Brasil. Um dos pontos centrais é o pedido por uma repartição mais equitativa dos recursos federais oriundos da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública (CFRP).
Igor Pontini, diretor-geral da Fundação Carmélia Maria de Souza, destacou que o foco da carta é a “defesa da sustentabilidade financeira das emissoras e formas de financiamento, não dá para ser uma única [fonte]”. Ele também defendeu a criação de uma instituição, nos moldes de uma associação, para unir as emissoras públicas de TV. A carta reconhece ainda iniciativas da EBC, como a política de inovação e o apoio a novas afiliadas.