Acesso à saúde na Amazônia: como a proximidade de pontos de atendimento transforma vidas e evita perdas em comunidades ribeirinhas remotas.
A distância e a falta de acesso a serviços de saúde sempre foram um desafio brutal para os moradores de comunidades ribeirinhas no interior do Amazonas. Histórias de perdas, sequelas e traumas por demora no atendimento são comuns, marcando gerações em locais como Carauari.
Um exemplo trágico é a perda da mãe de Francisco Solivan Peres de Araújo, que faleceu durante o parto de sua irmã no final da década de 80, sem qualquer possibilidade de chegar à cidade a tempo.
Esses relatos dolorosos, infelizmente, não são isolados e ressaltam a necessidade urgente de políticas públicas eficazes. Conforme divulgado pela Agência Brasil, a implantação de novos pontos de saúde na floresta tem sido crucial para mudar esse cenário, oferecendo um alívio e esperança para milhares de famílias.
O Legado da Distância e a Luta por Atendimento Médico
A vastidão territorial de Carauari, com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados, torna o deslocamento para a zona urbana, onde se concentra a estrutura de saúde, uma jornada que pode durar horas ou dias. A situação se agrava em épocas de seca, quando os rios ficam mais baixos e a navegação se torna ainda mais difícil.
Até os anos 90, a falta de assistência médica era ainda mais crítica. Relatos como o de Adriana da Silva e Silva, que sofreu sequelas permanentes na perna após uma picada de cobra em 2019, ilustram a gravidade da demora. O resgate demorou mais de 24 horas, e o veneno causou inchaço severo e a necessidade de quatro cirurgias para salvar o membro.
Raimundo Viana da Cunha também compartilha uma memória dolorosa: a morte de seu irmão em 1994, que esperou por mais de uma semana por um barco para levá-lo à cidade. Naquela época, a dependência de regatões, comerciantes ambulantes, tornava o acesso à saúde uma questão de sorte e tempo.
O Surgimento do “SUS na Floresta”: Uma Nova Esperança
Diante desse cenário, a iniciativa “SUS na Floresta” surge como um marco na oferta de saúde primária para as comunidades ribeirinhas. Fruto de uma parceria entre a prefeitura de Carauari, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e outros parceiros, o projeto instalou dois pontos de saúde nas unidades de Bauana e Campina.
Esses novos postos de atendimento oferecem consultórios, sala de triagem, atendimento odontológico e conexão à internet para telessaúde, integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS). A expectativa é que esses pontos atendam 56 comunidades, beneficiando cerca de 4,7 mil pessoas.
O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, que atua na unidade de Campina, destaca a importância desses postos, que realizam atendimentos que antes só seriam possíveis na cidade ou com a rara passagem da Unidade Básica de Saúde (UBS) fluvial, que visita as comunidades apenas duas vezes por ano.
Impacto e Expectativas para o Futuro
A chegada do atendimento primário mais perto das comunidades tem um impacto direto na redução de chamados de resgate e na prevenção de tragédias. O enfermeiro estima que as chamadas para resgate por lancha podem diminuir em até 80%, garantindo que pacientes recebam atendimento inicial e estabilização antes de serem transferidos para a cidade, caso necessário.
Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, ressalta os desafios logísticos e operacionais, além da necessidade de captação de recursos e da continuidade das políticas públicas pelos gestores.
Apesar dos desafios, o projeto “SUS na Floresta” demonstra a viabilidade de levar serviços essenciais para áreas remotas, garantindo o direito à saúde e permitindo que as famílias permaneçam em seus territórios, mantendo suas tradições e contribuindo para a preservação ambiental.
Moradores como Maria das Neves e Raimundo Viana da Cunha celebram a iniciativa, que representa um avanço inimaginável há poucas décadas. A instalação desses postos de saúde, que encurta distâncias e agiliza o atendimento, é vista como um divisor de águas para a qualidade de vida e a segurança na região amazônica.