Brasil sedia a COP15, um marco para a conservação de espécies migratórias em escala global. O evento, que acontece em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, reúne representantes de 132 países para debater e firmar acordos essenciais para a sobrevivência de animais que cruzam fronteiras. A iniciativa brasileira visa fortalecer a cooperação internacional e destacar a importância de biomas como o Pantanal.
A cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, tornou-se o epicentro das discussões sobre a conservação de espécies migratórias ao sediar a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15). O encontro, que ocorre entre 23 e 29 de março, é precedido por uma sessão de alto nível com a participação de chefes de estado e líderes de 132 nações e da União Europeia, signatários da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS).
Este evento marca o início de um novo ciclo de negociações e acordos de cooperação internacional liderado pelo Brasil. O secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, assumiu a presidência da COP15, conduzindo os debates entre os países participantes. A escolha do Brasil e, em particular, do bioma Pantanal, como sede da conferência, sublinha a relevância do país na rota migratória de diversas espécies e a necessidade de proteger ecossistemas vitais.
Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, Capobianco detalhou os pontos prioritários da agenda, a importância do debate para o Brasil, a escolha estratégica de Campo Grande e o funcionamento prático do tratado internacional. A COP15 aborda mais de 100 itens, focando na revisão e ajuste das listas de espécies ameaçadas e sob atenção, com base em novos dados científicos sobre seus fluxos migratórios e condições de conservação. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, o secretário-executivo destacou a necessidade de atualização constante do conhecimento sobre as migrações para embasar as decisões dos países signatários.
Prioridades da Agenda COP15 e a Biodiversidade Brasileira
A agenda da COP15 é extensa, com mais de 100 itens a serem apreciados pelos 133 países presentes. O foco principal recai sobre a revisão dos anexos da convenção, que listam espécies migratórias ameaçadas e aquelas que requerem atenção especial. Essa atualização é crucial, pois o conhecimento científico sobre as rotas e o estado de conservação das espécies evolui constantemente. Novos estudos são apresentados a cada três anos para que os países possam identificar novas espécies que necessitam de proteção e intensificar a cooperação internacional.
Para o Brasil, a discussão é de suma importância devido à sua megadiversidade. O país abriga o segundo maior número de espécies de aves do mundo e é rota para um volume significativo de animais migratórios anualmente. São 126 espécies de aves, além de peixes e mamíferos como a toninha, o menor golfinho do mundo, que migra entre Argentina, Uruguai e Brasil, e a baleia jubarte, que utiliza as águas brasileiras para reprodução.
As tartarugas marinhas, que nascem no Brasil e retornam para desovar em praias onde nasceram, também exemplificam a complexidade e a importância das rotas migratórias que passam pelo país. A dimensão continental do Brasil o torna uma referência mundial nos ciclos migratórios, e sediar a COP15 oferece uma oportunidade única para ampliar as ações de proteção e aprofundar o conhecimento sobre essas espécies.
Pantanal: Um “Hub Vital” para Espécies Migratórias
A escolha de Campo Grande, no Pantanal, como sede da COP15 não foi aleatória. O Pantanal é reconhecido como a maior área úmida continental do planeta e um ponto de passagem para dezenas de espécies migratórias, ostentando uma biodiversidade riquíssima. Capobianco descreveu o bioma como um “hub vital” para a manutenção dessas espécies durante suas jornadas.
A intenção ao sediar o evento no Pantanal foi chamar a atenção para a necessidade de proteger este vasto patrimônio transnacional, que se estende pelo Brasil, Paraguai e Bolívia. O bioma, altamente dependente do ciclo hídrico e da pluviosidade, é particularmente sensível às mudanças climáticas. A COP15 busca, portanto, intensificar a cooperação e a integração de esforços entre os três países para a conservação deste ecossistema fundamental.
Cooperação Internacional e Desafios na Proteção
A Convenção CMS opera com base na cooperação internacional, garantindo que espécies, independentemente de sua origem, sejam protegidas em suas rotas migratórias. A articulação entre os países por onde esses animais passam é essencial para assegurar que encontrem as condições ambientais necessárias para uma migração segura. Capobianco ressaltou que essa cooperação é “desinteressada”, pois as nações se unem para o bem das espécies.
As ameaças a essas espécies são diversas, incluindo a perda e degradação de habitat, poluição, caça e captura, barreiras físicas como linhas de transmissão e turbinas eólicas, e, mais recentemente, as mudanças climáticas. A convenção busca identificar essas ameaças e construir medidas de solução baseadas na cooperação internacional e na integração de esforços.
Um exemplo prático citado foi a proteção da toninha. A pesca industrial com redes de arrasto representa um grande perigo para o animal, levando à sua morte por asfixia. A solução encontrada, em parte, é a criação de corredores de proteção, como o recém-criado Parque Nacional do Albardão, na divisa com o Uruguai. Este parque impede a operação de pesca predatória em áreas cruciais para a migração da toninha, com um acordo de cooperação entre Brasil, Uruguai e Argentina para a proteção específica da espécie.
Financiamento e Resultados Esperados da COP15
O financiamento para as ações de conservação é um item na pauta da COP15, mas o modelo de cooperação da CMS foca na implementação de ações pelos próprios países. O secretariado da convenção não exige grandes recursos, pois o principal desafio é a articulação e a execução das medidas de proteção pelas nações signatárias e parceiras.
Para que a COP15 seja considerada um sucesso, espera-se o cumprimento de uma agenda ambiciosa em uma semana, a tradução dessa agenda em novos protocolos e ações integradas de cooperação. O presidente Lula incentivou países não signatários a considerarem a adesão à CMS. Dezoito países foram convidados a participar da conferência, com o objetivo de aumentar o interesse internacional e o envolvimento da sociedade brasileira com o fenômeno das migrações.
O Brasil busca, com a COP15, estimular pesquisadores e centros de pesquisa a avançarem nos estudos sobre espécies migratórias e conscientizar a sociedade sobre a importância da proteção desses animais. As espécies migratórias são consideradas bioindicadores ambientais, pois sua capacidade de migrar e se reproduzir em número significativo reflete o sucesso das ações de conservação ambiental nos países por onde passam, indicando a saúde do planeta.