Ataque brutal a escola de meninas no Irã: o lado sombrio da guerra que choca o mundo
O conflito recém-iniciado entre Estados Unidos, Israel e Irã já deixou um rastro de dor e indignação. No primeiro dia da guerra, um ataque a uma escola de meninas na cidade de Minab, sul do Irã, resultou na morte de 168 crianças e deixou mais de 90 feridas. A tragédia, que ocorreu pela manhã enquanto as alunas estavam em aula, expõe os horrores da guerra e seus impactos devastadores na vida de meninas e mulheres na região.
As imagens que correram o mundo mostram uma multidão vestida de preto em um velório coletivo, com valas abertas para receber dezenas de caixões enfileirados. Milhares de pessoas acompanharam a cerimônia, em um lamento que ecoa a dor de uma nação e a crueldade de um conflito que parece ter como um de seus primeiros alvos a educação e o futuro.
Apesar de potências ocidentais historicamente usarem violações de direitos humanos no Irã para justificar sanções e isolamento, o ataque à escola levanta sérias dúvidas sobre os reais motivos da ofensiva. Sociólogos e jornalistas apontam que a guerra não parece ter como objetivo a liberdade ou a democracia, mas sim outros interesses que se sobrepõem à vida e ao bem-estar da população civil, especialmente a feminina.
A guerra e a falácia da “libertação” feminina
A socióloga Berenice Bento, especialista em relações de gênero no mundo muçulmano, critica a narrativa de “libertação” usada por EUA e Israel. Segundo ela, o ataque a uma escola de meninas demonstra que a guerra não se trata de direitos humanos. “Quando você analisa as manifestações que aconteceram, nenhuma está dizendo que quer a volta da monarquia, ou que os Estados Unidos e Israel vá libertá-las. Nunca. O que você tem é uma sociedade que está lutando”, pondera Bento.
A jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, doutora em Estudos Árabes, reforça que mulheres iranianas lutam há décadas por seus direitos, citando o movimento “Mulher, Vida e Liberdade”, surgido após a morte de Mahsa Amini em 2022. “O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel”, afirma Misleh.
A pesquisadora Natália Ochôa, da UFRGS, questiona a visão ocidental de “salvar a mulher muçulmana”. “Se um desses pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?”, indaga.
A luta das mulheres iranianas e os avanços sociais
Apesar das restrições impostas pelo regime iraniano, como o uso obrigatório do véu e a necessidade de autorização para viagens, as mulheres iranianas têm demonstrado forte resistência. A luta por direitos é antiga e inclui figuras como a ativista Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz em 2023, atualmente presa no Irã.
É importante notar que, mesmo diante das dificuldades, houve avanços sociais significativos no Irã nas últimas décadas. Dados do Banco Mundial e da Unesco indicam que a taxa de alfabetização feminina saltou de cerca de 30% nos anos 1970 para aproximadamente 85% nos anos 2000. A participação feminina nas universidades também cresceu expressivamente, passando de 33% para cerca de 60% no mesmo período.
Autoria do ataque e a “Doutrina Dahiya”
A autoria do ataque à escola de Minab ainda não foi oficialmente reconhecida por Estados Unidos e Israel. A Casa Branca afirma que está investigando, enquanto Israel nega qualquer ligação com o ocorrido. No entanto, Berenice Bento sugere que a ação pode estar alinhada à “Doutrina Dahiya”, que prevê a destruição em larga escala de infraestrutura civil para pressionar a população local.
O jornal New York Times, com base em análise de imagens de satélite e vídeos, indica que o ataque foi de precisão e ocorreu simultaneamente a ofensivas americanas a uma base da Guarda Revolucionária Islâmica. A proximidade da escola ao alvo militar leva o especialista Agostinho Costa a considerar a possibilidade de um erro de alvo, dada a margem de erro de mísseis como o Tomahawk.
Soraya Misleh, por sua vez, avalia que ataques a infraestruturas civis em Gaza abriram precedentes para novos crimes na região, e que mulheres do Oriente Médio precisam de apoio e solidariedade, não de uma “salvação” imposta.