Peru define segundo turno em eleição marcada por incertezas e crise política
Após mais de um mês de apuração conturbada, o Peru definirá seu próximo presidente em 7 de junho, em um segundo turno que colocará frente a frente a candidata de direita Keiko Fujimori e o de esquerda Roberto Sánchez Palomino. O pleito ocorre em um cenário de instabilidade política crônica, com o país já tendo escolhido 130 deputados e 60 senadores.
A disputa eleitoral foi permeada por atrasos na votação, denúncias de fraude sem comprovação e a renúncia de autoridades eleitorais. Apesar dos percalços, missões da União Europeia e da Organização dos Estados Americanos (OEA) não encontraram evidências de fraudes que pudessem invalidar o processo.
A proclamação oficial dos resultados, que envolveu uma inédita recontagem de votos, está prevista para este domingo. Conforme informações divulgadas, a eleição contou com 35 candidatos presidenciais e mais de 27 milhões de eleitores aptos a votar, em um país que enfrenta sua nona crise presidencial em uma década. A situação política peruana tem gerado preocupação em toda a região, dada a importância estratégica do país sul-americano.
Keiko Fujimori busca a presidência pela quarta vez
Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko Fujimori, que obteve 17,18% dos votos, chega ao seu quarto segundo turno presidencial. Ela já foi derrotada nas eleições de 2011, 2016 e 2021. Sua campanha tem defendido uma aproximação com os Estados Unidos, o que pode impactar os investimentos chineses no país, como o Porto de Chancay.
A resistência à herança política de seu pai, condenado por violações de direitos humanos, é vista como um fator que limita seu potencial de votos. A possibilidade de uma nova gestão com foco em relações internacionais mais próximas aos EUA surge como um dos eixos de sua plataforma.
Roberto Sánchez Palomino, o candidato da esquerda
Roberto Sánchez Palomino, ex-ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo, conquistou 12,03% dos votos, superando o ultraconservador Rafael Aliaga por uma margem apertada de apenas 21 mil votos. Sánchez é um defensor de propostas como a nacionalização de recursos naturais, uma nova constituinte e o fortalecimento dos direitos trabalhistas.
Ele se apresenta como aliado do deposto ex-presidente Pedro Castillo, que tenta uma nova constituinte para refundar os poderes institucionais do Peru. Para seus apoiadores, Castillo foi vítima do parlamento por representar o voto da população rural, evidenciando a divisão social e política no país andino.
Acusações contra Sánchez Palomino marcam campanha
Em meio à campanha eleitoral, o Ministério Público do Peru apresentou uma denúncia contra Roberto Sánchez Palomino, pedindo cinco anos e quatro meses de prisão por supostas irregularidades na prestação de contas partidárias entre 2018 e 2020. O pedido também inclui a “inabilitação definitiva” do candidato.
Sánchez Palomino nega veementemente as acusações, afirmando que a denúncia por suposto desvio de fundos partidários já havia sido arquivada pela Justiça. Ele declarou à imprensa que nunca foi tesoureiro do partido e não recebeu dinheiro de fontes ilícitas, defendendo sua inocência.
Crise política se aprofunda no Peru
O Peru vive uma profunda crise política, que se intensificou após a deposição do ex-presidente Pedro Castillo em novembro de 2022. Castillo foi preso após tentar dissolver o Parlamento, em uma tentativa de golpe de Estado. Sua vice, Dina Boluarte, assumiu a presidência, mas sua gestão foi marcada pela repressão violenta a manifestações populares, com dezenas de mortos, segundo a Anistia Internacional.
Com baixíssima aprovação, Boluarte foi destituída pelo Congresso em outubro de 2025, seguida por uma breve gestão do presidente do Parlamento, José Jerí, e uma interinidade de José María Balcázar Zelada. A instabilidade no comando do país demonstra a fragilidade das instituições peruanas e a dificuldade em encontrar um caminho para a estabilidade democrática.