A conquista do voto feminino no Brasil enfrentou e ainda enfrenta a misoginia histórica, com discursos que tentam minar a cidadania das mulheres e a própria democracia.
Desde a Proclamação da República, o direito das mulheres ao voto tem sido alvo de ataques. Em 1891, senadores constituintes já expressavam posições contrárias, como a de que “minha mulher não irá votar” e que inserir a mulher na política “tiraria-lhe a santidade”.
Mais de um século depois, esses discursos reaparecem com força perturbadora. Em 2026, o influenciador Paulo Figueiredo afirmou que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido”.
Essas manifestações machistas, segundo estudiosas do tema, são reações aos avanços da cidadania feminina. O que chama a atenção não é o ineditismo do discurso, mas a sua continuidade e as ameaças veladas ou explícitas. Conforme aponta a Agência Brasil, a luta pelo voto feminino foi uma conquista árdua contra a resistência do Estado e da sociedade patriarcal, exigindo “luta permanente” para a manutenção dos direitos.
Um Legado de Resistência e Ataques Contínuos
A professora de direito Fernanda Abreu, da UERN, destaca que, apesar da linguagem ter mudado, a lógica patriarcal, misógina e machista permanece a mesma. Ela ressalta que o voto feminino no Brasil foi conquistado “contra a resistência do Estado e da sociedade machista”, e não como uma concessão. “Direitos não se mantêm sozinhos. Eles exigem luta permanente”, afirma.
Abreu considera “perturbador” o ressurgimento dessas manifestações questionando o voto da mulher, especialmente em 2026. Do ponto de vista jurídico-constitucional, tais discursos violam o Artigo 14 da Constituição Federal de 1988, que estabelece o sufrágio universal sem distinção de sexo, e o Artigo 5º, que veda qualquer tipo de discriminação. “Além de inconstitucionais, as manifestações operariam um discurso criminoso”, pondera.
A pesquisadora Cibele Tenório, da UnB, ecoa essa preocupação, classificando a recorrência dos ataques em mais de um século como “absurda”, mas compreensível em um contexto de machismo estrutural. Ela lembra que as sufragistas do século 20 “lutaram e tiveram inteligência diferenciada para garantir o direito para todas nós”.
O Voto Feminino Sob Ataque: Estatísticas e Estratégias de Intimidação
Em 2026, com as mulheres representando mais de 53% do eleitorado brasileiro – totalizando 83.877.126 eleitoras aptas, contra 74.845.001 homens –, atacar o voto feminino configura-se como uma estratégia de intimidação política. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que as mulheres têm maior escolaridade em níveis como ensino médio completo e superior.
As pesquisadoras ouvidas pela Agência Brasil identificam esses discursos como parte de um “backlash” – uma retaliação – por parte dos homens. “Quanto mais as mulheres avançam, mais as estruturas que sustentam a misoginia, o patriarcado e o machismo resistem”, explica Fernanda Abreu.
A historiadora Ana Prestes, da UnB, lembra que na primeira Constituição Republicana, de 1891, o sufrágio feminino foi rejeitado com o argumento oficial da incapacidade intelectual da mulher para a vida pública. As sufragistas eram ridicularizadas, chamadas de “mulheres-homens”, e a imprensa da época as retratava de forma pejorativa.
A Luta Histórica das Sufragistas e a Importância da Educação
A conquista do voto feminino não foi um ato espontâneo, mas resultado de intensa mobilização. O Partido Republicano Feminino, fundado em 1910, e a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922, foram marcos importantes na articulação de governadores, pressão ao Congresso e organização de manifestações, utilizando a imprensa e conexões com o movimento sufragista global.
Bertha Lutz, uma das principais líderes, “sabia acionar pessoas e conversar inclusive com os mais conservadores em busca de aliados”, relata Cibele Tenório. A luta também se deu em espaços de educação, com a criação de jornais e escolas para debater o tema e contrapor os discursos machistas.
O marco legislativo mais importante é o Decreto 21.076 de 1932, seguido pela Constituição de 1934, que garantiram o direito ao voto feminino. A obrigatoriedade do voto para mulheres alfabetizadas foi introduzida no Código Eleitoral de 1946. A Constituição de 1988 eliminou o requisito da alfabetização, solidificando o sufrágio universal.
Para a professora Marlise Matos, da UFMG, o Estado brasileiro precisa reafirmar seu compromisso com os direitos políticos das mulheres e reforçar campanhas informativas. Ana Prestes enfatiza a importância da educação formal como ferramenta de resistência, lembrando que muitas sufragistas eram professoras. “Eram ousadas, persistentes e hábeis articuladoras”, conclui.