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Catadoras de Mangaba em Aracaju: A Luta de Mulheres Guardiãs da Natureza Contra a Especulação Imobiliária

Catadoras de Mangaba em Aracaju: A Luta de Mulheres Guardiãs da Natureza Contra a Especulação Imobiliária

Mulheres guardiãs da mangaba em Aracaju enfrentam expansão urbana e especulação imobiliária em defesa de seu território e sustento As remanescentes de mangabeiras em Aracaju, especialmente na zona sul da cidade, enfrentam uma intensa pressão imobiliária. A expansão urbana ameaça o modo de vida e a autonomia econômica de dezenas de famílias, em sua maioria […]

Resumo

Mulheres guardiãs da mangaba em Aracaju enfrentam expansão urbana e especulação imobiliária em defesa de seu território e sustento

As remanescentes de mangabeiras em Aracaju, especialmente na zona sul da cidade, enfrentam uma intensa pressão imobiliária. A expansão urbana ameaça o modo de vida e a autonomia econômica de dezenas de famílias, em sua maioria mulheres, que dependem da coleta e do manejo do fruto da mangaba.

“A gente está rodeado de uma selva de pedra. Eu me sinto guardando um tesouro da humanidade”, desabafa Maria Eliene Santos, presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper (ACCMPLL). A entidade é fundamental na orientação da produção, preservação do conhecimento tradicional e interlocução com o poder público.

O trabalho da associação foi reconhecido com o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiões da Sociobiodiversidade. Um valor de R$ 45 mil foi destinado para fortalecer o beneficiamento da mangaba e o turismo de base comunitária na região, com apoio da UFS e Embrapa. Conforme informações divulgadas pela Agência Brasil, o território das catadoras compreende a Reserva Extrativista (Resex) Mangabeiras Missionário Uilson de Sá e uma área da União concedida à comunidade.

Um território de resistência e tradição

Há mais de oito décadas, famílias, majoritariamente negras, mantêm o extrativismo da mangaba nessas áreas. A Resex Uilson de Sá foi palco da 5ª Festa da Colheita, que marcou o lançamento do Plano de Manejo Popular. Este documento, elaborado coletivamente, visa registrar a memória histórica, estimular a conservação e subsidiar a gestão participativa do território.

“O plano de manejo foi uma maneira que a gente encontrou, junto com a comunidade, de reorganizar todo mundo em torno da continuidade da luta em defesa do território”, explica Leandro Sacramento Santos, conhecido como Pel, da Associação Raízes, que presta assessoria a comunidades tradicionais em Sergipe. A comunidade teme a imposição de planos pela prefeitura que não contemplem suas necessidades.

Uma das controvérsias é a proposta da prefeitura de transformar a Resex em um parque urbano aberto. As catadoras argumentam que isso descaracterizaria a finalidade da unidade de conservação, criada para proteger seu modo de vida e o uso sustentável do território. “Quando o Estado vier construir o plano de manejo, a comunidade já sabe o que quer”, aponta Raquel Fernandes, analista da Embrapa Tabuleiros Costeiros.

Trauma coletivo e a luta por direitos

O processo de criação da reserva foi marcado por violações de direitos que quase extinguiram a atividade extrativista. A expansão urbana a partir dos anos 2010 levou à implantação de empreendimentos habitacionais e à supressão de áreas de coleta. A Resex foi demarcada como condicionante ambiental para financiamento do Banco Mundial para um conjunto habitacional, mas, segundo a comunidade, ocorreu após a devastação de centenas de mangabeiras e não contemplou toda a área tradicional.

O missionário católico Uilson de Sá foi fundamental na organização das famílias a partir de 2014, defendendo as mangabeiras e o direito de permanência. Ele buscou conciliar a luta dos extrativistas com a luta por moradia popular. Infelizmente, Uilson de Sá foi encontrado morto em novembro de 2022. Após investigação, a conclusão foi de asfixia por estrangulamento autoprovocado acidental. Ele se tornou um símbolo da luta, dando nome à reserva.

Rosenaide de Sá, a dona Zenaide, mãe de Uilson e uma das catadoras mais antigas, relata que a insegurança persiste. “Continuam nos ameaçando”, revela. Ela observa que as mangabeiras remanescentes, especialmente as próximas à área urbana, têm dificuldade de desenvolvimento. A falta de vegetação de amortecimento e o tráfego de veículos afetam a polinização e a produtividade das árvores.

Serviços ambientais e a perda do protagonismo

A mangaba, fruto nativo do Brasil, é patrimônio cultural e sociobiodiversidade de diversas comunidades. O ofício das catadoras e a própria espécie são patrimônios culturais de Sergipe. “Quem é sergipano não vive sem mangaba, sem o suco da mangaba”, destaca Raquel Fernandes, da Embrapa.

“Essa área aqui é uma das únicas de Aracaju com esse bosque, essa área verde contínua, em que que gente consegue respirar um ar um pouco mais fresco. Essa mulheres são guardiãs da biodiversidade, considerando toda a parte cultural”, acrescenta. Apesar desse serviço socioambiental, Sergipe perdeu sua posição de principal produtor nacional de mangaba, caindo para a quarta posição, atrás de Paraíba, Rio Grande do Norte e Minas Gerais, segundo dados do IBGE de 2023.

A redução dos remanescentes de mangabeiras, provocada pela expansão urbana e mudanças no uso do solo, é apontada como principal causa. “O próprio poder público fomenta um processo de extinção da cultura associada a ela”, critica Cristiane Campos, professora da UFS. As catadoras, com seu modo de vida, já prestam uma “enorme contribuição socioambiental” à sociedade sergipana.

“A mangaba representa tudo. É da mangaba que a gente tira o nosso sustento. Além de a gente estar protegendo a natureza, a gente faz várias coisas com a mangaba”, resume Maria Eliene Santos. Além da coleta, as famílias produzem geleias, licores, biscoitos, bolos e outros derivados.

Cenários futuros e políticas públicas

O Plano de Manejo Popular da Resex Uilson de Sá propõe a construção da Casa da Mangaba, um centro de beneficiamento do fruto, que também abrigaria o museu da mangaba e a sede da associação. O turismo de base comunitária é outra proposta para gerar renda, especialmente na entressafra.

A comunidade reivindica a inclusão em políticas públicas como o Pnae e o PAA para impulsionar o comércio da fruta e garantir mais estabilidade econômica. A prefeitura de Aracaju informou que a elaboração do plano de manejo depende da indicação de representantes das catadoras para o conselho gestor e garantiu apoio na construção da unidade de beneficiamento. A prefeitura também afirmou que a fiscalização ambiental é contínua e que a Guarda Municipal intensificou as rondas, buscando reduzir impactos negativos na reserva.

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