Moradores de Perus Denunciam Manipulação e Exclusão em Audiência Pública sobre Incinerador de Lixo
Habitantes do bairro de Perus, na Zona Norte de São Paulo, manifestaram forte descontentamento e acusam a prefeitura e o governo estadual de fraude e manipulação durante a primeira audiência pública sobre a implantação de um incinerador de lixo na região. A comunidade alega ter sido excluída do debate, com suspeitas de recrutamento de pessoas de fora do território para desmobilizar a oposição ao empreendimento.
A audiência, de caráter consultivo, visava discutir os impactos da chamada Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, projeto da empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga). Segundo relatos de moradores, ônibus teriam transportado pessoas não identificadas na comunidade para o evento, que lotaram o espaço e se inscreveram prioritariamente para discursar, dificultando a participação de residentes locais com críticas e questionamentos.
Um dos participantes, que pediu para não ser identificado, confirmou ter recebido dinheiro para comparecer à audiência como se fosse morador de Perus. Essa pessoa relatou ter sido orientada sobre como reagir em diferentes momentos do debate. A situação impediu a entrada de cerca de 500 moradores, que aguardaram do lado de fora, muitos sob chuva, enquanto o teatro do Centro Educacional Unificado (CEU) Perus atingia sua capacidade máxima. As informações foram apuradas pela Agência Brasil.
Participação Restrita e Tensão no Local
A superlotação do teatro do CEU Perus, com a instalação de televisores na entrada para tentar acomodar os presentes, não foi suficiente para incluir todos. Cerca de 500 moradores foram impedidos de entrar e participar ativamente da audiência. Do lado externo, a presença de agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM), equipados com escudos e gás de pimenta, gerou tensão, com relatos de proibição da fala de vereadores, o que foi negado pela assessoria da prefeitura.
Apenas três representantes indígenas da Terra Indígena do Jaraguá conseguiram acesso ao interior do CEU, após insistência. A comunidade indígena, cujos ancestrais têm ligação histórica com a região de Perus, também buscava expressar suas preocupações com o projeto.
Argumentos Contra o Incinerador e Propostas Alternativas
Engenheiro químico Mario Bortoto, um dos líderes do movimento de resistência em Perus, ressalta que a lei assegura consultas públicas e que a condução da audiência justifica a organização de um evento popular pelos moradores. Ele critica o incinerador, classificado como ultrapassado em outros países, e aponta preocupações com as cinzas tóxicas e o aumento do tráfego de caminhões na região.
Bortoto argumenta que a prefeitura não teria capacidade de fiscalizar os parâmetros ambientais e que o projeto agravaria problemas de saúde em uma comunidade já carente de atendimento adequado. Ele destaca o preconceito com a região, a falta de médicos e a precariedade da infraestrutura como fatores que conectam os problemas de saúde à má reputação de Perus entre os paulistanos.
A química e consultora da WWF Brasil, Thais Santos, outra líder nas articulações locais, lamentou a manipulação da audiência e da informação, observando que o horário escolhido coincidia com o expediente da maioria dos trabalhadores. Em vez do incinerador, moradores e ativistas propõem a criação de um Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera, valorizando a relação com a natureza e a resistência política local.
Histórico de Pressões e Problemas na Região
Os moradores de Perus já enfrentaram tentativas de persuasão pela empresa Loga para apoiar a obra. A região carrega um histórico de estigmas, como a Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco e a proximidade com o Hospital Psiquiátrico do Juquery, ambos associados a violações de direitos humanos. O Mapa da Desigualdade de 2025 aponta uma expectativa de vida de 62 anos em Perus, contrastando com sua alta cobertura vegetal.
O bairro também sofreu com a implantação de outros empreendimentos, como o aterro sanitário na Chácara Maria Trindade e o aterro sanitário Bandeirantes, que operou por 28 anos recebendo milhões de toneladas de resíduos. Bortoto relembra pressões sofridas por sua comunidade e vizinhas para aceitar projetos semelhantes.
Posicionamento das Autoridades e da Empresa
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) afirmou que todas as colocações da audiência serão incluídas no processo de licenciamento e consideradas na análise técnica do projeto da URE em Perus. A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) do estado também foi contatada.
Em nota conjunta, a SP Regula e a Loga defenderam as UREs como instalações modernas, que não oferecem riscos à saúde e são utilizadas em diversos países. Afirmaram que a URE Bandeirantes visa reduzir o volume de resíduos em aterros, gerar energia e proteger o meio ambiente. A empresa negou qualquer oferta de vantagens a participantes e reforçou que a presença do público foi espontânea, respeitando a ordem de chegada e a capacidade do local. Ressaltaram a importância do diálogo e que o debate deve se basear em informações técnicas e dados oficiais.