Coletivo de mulheres quilombolas lança documentário “Cafuné” e pede proteção eficaz do Estado
O documentário “Cafuné”, lançado nesta quinta-feira (12), expõe a dura realidade vivida por mulheres quilombolas em todo o Brasil. Através de relatos emocionantes, o filme, idealizado pelo coletivo de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), evidencia a urgência de políticas de proteção eficazes para defensoras de direitos humanos em comunidades tradicionais.
O projeto “Cafuné” vai além do documentário, buscando sensibilizar o poder público federal e o Congresso Nacional. O nome, que remete a um gesto de carinho, simboliza a tentativa de oferecer aconchego às mulheres que vivem sob constante ameaça, seja por conflitos agrários ou pela deficiência de políticas públicas adequadas.
A iniciativa surge em um momento crítico, marcado pela dor e pelo temor gerados pelo brutal assassinato da ativista Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, em agosto de 2023. Este evento trágico reforçou a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de proteção, como aponta Selma Dealdina, articuladora política da Conaq. Conforme informação divulgada pela Conaq, pelo menos 100 mulheres quilombolas vivem sob ameaça no país, e entre 2019 e 2024, 26 pessoas em comunidades quilombolas remanescentes foram assassinadas.
Proteção Coletiva e Demandas Amplas
A principal proposta do projeto “Cafuné”, que será apresentado oficialmente aos três poderes em maio, é focar em proteção coletiva, e não apenas individual. “A nossa ideia é propor ao Estado brasileiro um plano de proteção e autocuidado que seja coletivo, não só para uma pessoa”, ressalta Selma Dealdina. As ameaças e mortes de lideranças em seus próprios territórios são uma realidade alarmante.
O plano “Cafuné” abrange demandas que vão além da segurança pública. As prioridades incluem a agilidade na titulação dos territórios, a prevenção ao adoecimento e o apoio à saúde mental das mulheres quilombolas. A elaboração do projeto contou com o apoio do Instituto Ibirapitanga e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid).
Vulnerabilidades e Desafios de Saúde
Uma pesquisa da Fiocruz, realizada no final do ano passado, revelou que a população quilombola adulta morre mais por causas evitáveis. Entre as mulheres, a taxa de mortes por infarto é 18% maior e por derrame, 38% maior em comparação com a população geral. Além disso, as comunidades enfrentam graves deficiências de infraestrutura, com 55% sem acesso à água potável, 54% sem rede de esgoto e 51% sem coleta de lixo.
A coordenadora nacional da Conaq, Cida Barbosa, destaca a urgência no atendimento à saúde mental das ativistas. “Nós temos percebido uma deficiência do acesso a apoio psicológico. Esse é um atendimento ainda inacessível para nós”, afirma. As demandas variam conforme a região, mas a necessidade de suporte psicológico é uma constante.
Resposta do Governo Federal
Élida Lauris dos Santos, secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, vê a demanda da Conaq como alinhada às metas do governo federal. “Uma das metas do plano nacional é o desenvolvimento mais aprofundado, tanto da perspectiva racial quanto de gênero. O projeto Cafuné vem ao encontro do que até o ministério (dos Direitos Humanos e Cidadania) está comprometido a resolver”, garantiu. O combate ao feminicídio e à violência contra a mulher são prioridades do governo.
Eventos e Luta Contínua
Em maio, além da apresentação oficial do projeto “Cafuné”, o Congresso Nacional sediará uma solenidade para celebrar os 30 anos de luta da Conaq. No mesmo mês, ocorrerá o 3º Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, no Gama (DF). Estes eventos reforçam a importância da articulação e da visibilidade para as causas quilombolas e para a proteção de suas lideranças.